Ter um portfólio ou usar as redes sociais?

Redes sociais ou um portfólio? Neste texto tentamos perceber qual é mais vantajoso para nós, como freelancers, e como escolher a rede social certa onde publicar o nosso trabalho.

Este post é a versão escrita do episódio 15 do podcast Fazer Preços e Assim, que podes ouvir através do Apple Podcasts, do Spotify ou outros locais habituais.

Falamos então de redes sociais, especificamente sobre como utilizar as redes sociais para promover o nosso trabalho. Há muitas maneiras de conseguir clientes, a pergunta não é tanto como consegui-los mas antes que clientes queremos encontrar. E depois fazemos um plano. Perguntem-se certas coisas como, "quero trabalhar para empreendedores e negócios que estão a começar? ou quero procurar clientes com grandes empresas?", ou "quero trabalhar para clientes no meu país? ou clientes internacionais?". Há muitos pontos de chegada. E para cada ponto de chegada há vários caminhos. Entre trabalhar através de plataformas de freelancing, enviar e-mails com propostas, fazeres uso do teu networking ou usares as redes sociais.

É sobre isto que vamos falar neste post. Primeiro, porque é tentador usar as redes sociais — parece que toda a gente está lá e é lá que tudo acontece; depois, porque a conversa da promoção nas redes sociais não só parece misteriosa, como ao mesmo tempo ineficaz, prometedora, e difícil de controlar. Há muitos cursos e materiais online pensados para ajudar pequenos negócios a usarem as redes sociais para se promoverem. Mas nós, como freelancer, somos mais pequenos do que um pequeno negócio e há estratégias que até podem nem fazer tanto sentido para nós.

Regra geral, potenciais clientes não seguem portfólios

Quando usamos um página de instagram ou facebook como portfólio puro e duro, ou seja, irmos pondo várias imagens que vão resultando do nosso trabalho de design, o mais provável é que as pessoas que nos seguem sejam outros designers. Não há nada de errado nisso. É como ter um béhance com gente mais variada em trânsito, misturado com a vida geral, mas o propósito não se desvia muito de um béhance original: juntar imagens de portfólio e obter reação dos pares. Vantagens de ter este tipo de conteúdo no instagram? A criação de pequenas comunidades e a promoção dentro da bolha da nossa área através do uso de hashtags e tags específicos, de páginas que fazem curadoria de vários projetos. Isto tanto a nível nacional como internacional. Outra vantagem é a interação mais imediata (visto que será a rede social onde estás mais vezes) do que em sites como o béhance. Desvantagem, o instagram não tem um motor de busca preparado para esse tipo de conteúdo, é difícil que recrutadores e clientes que procurem designers o façam numa rede social como o instagram. Não está preparada e o seu propósito não é esse. Já o béhance, o indústria criativa ou o linkedin funcionam melhor para ser visto por quem anda à nossa procura. Entende as redes sociais como o lugar para estares para chocares com pessoas ao acaso — para o bem, porque pessoas aleatórias te podem encontrar, e para o mal, porque essa imensidão dificulta imenso conseguires chegar às pessoas certas.

Se a tua intenção for ter um portfólio para ser encontrado, há lugares melhores. Se for partilhar o teu trabalho e participar na comunidade de designers numa determinada rede social, estás no lugar certo!

Há outras duas razões para fazer sentido partilhares o teu trabalho numa rede social: teres um projeto pessoal ou pensares o teu portfólio como "conteúdo". Já falámos dos projetos pessoais e do seu potencial no episódio com a Joana Estrela. O Luscofia nasceu como um projeto pessoal para mim, misturou-se com a minha página pessoal de instagram e eventualmente tomou conta dela. Há outros exemplos e são diferentes dos portfólios, têm um propósito de divulgação e de partilha que vai além da angariação de clientes. Também podes adaptar o teu trabalho à criação de conteúdo numa rede social. Há ilustradores são muito bons a adaptar conteúdo para as redes sociais, que criam uma identidade muito própria e que se mistura com o trabalho comercial que fazem, como é o caso da própria Joana Estrela, da Mariana a Miserável e dos seus desenhos literais, ou

Escolher uma rede e conhecê-la bem

Deixem-me dizer-vos que no último ano aprendi muito sobre redes sociais, mas antes disso já tinha feito um workshop com o We Blog You, que foi a minha introdução ao tema, e o ano passado fiz um curso on-line da Maria Gonçalves, que satisfez a minha necessidade de estatísticas e métricas. Ambos — tanto o We Blog You como a Maria Gonçalves — têm podcasts e falam muitas vezes sobre redes sociais. Identifico-me muito com a forma como Fred e da Raquel vêem as redes sociais. O conteúdo da Maria é claramente a pessoas não designers que estão a criar os seus negócios, no entanto pode ser uma fonte de informação importante para aprender as bases do marketing digital. Sei alguma coisas e considero-me uma designer que também sabe gerir redes sociais mais do que uma profissional do marketing digital.

Vamos a algumas coisas base sobre redes sociais.

Primeiro, muitos seguidores não são sinónimo de muitos clientes ou muitas vendas, o objetivo deverá ser sempre teres pessoas que te seguem e que estejam realmente interessadas no que estão a receber de ti, senão só te prejudica. É preciso relativizarmos os números. Estamos habituados a números grandes e esquecemo-nos que 500 pessoas é a capacidade de um auditório com muita gente, como um Grande Auditório do Teatro de Vila Real. 2000 pessoas é a capacidade ... E mesmo que sejam só 100, se metade te contratar trabalho já é suficiente para muito tempo, não é?

Segundo, acompanhar as estatísticas é importante, saberes o que resulta e o que não resulta e dedicares algum tempo a analisar o mês que passou é o que vai garantir que vais afinar a estratégia para o mês seguinte.

Terceiro, planear é importante, sobretudo para evitar que seja um sacrifício teres ideias em cima do joelho.

Quarto, é sempre bom ter um site ou algum sítio online onde tenhas total controlo do teu conteúdo e da sua disponibilidade. De hoje para amanhã a rede social que trabalhas pode desaparecer, para onde vão os teus contactos? Websites e mailing lists são o tipo de coisa que fica, mesmo na volatilidade das redes sociais. Não só isso como é bom teres um site para onde encaminhar as pessoas para verem o teu trabalho organizado, arrumado e sem distrações. É que muitas redes não indexam o teu conteúdo no google, o que significa que só és pesquisável dentro da própria rede. Isso tem alguns limites.

E quinto, não tens de estar em todas, algumas farão mais sentido do que outras dependendo do trabalho que fazes e do que queres promover.

Então e como é que se escolhe uma rede? Ou várias até?

A primeira coisa a fazer é pensares, realisticamente, quantas redes consegues alimentar como deve ser. Planear e criar conteúdo exige tempo e dedicação. Não queremos dar um passo maior do que a perna e depois ficar frustrados porque ficou tudo parado a meio.

Quais são os teus pontos fortes? És bom fotógrafo? Preferes desenhar? És óptimo a fazer curadoria de trabalhos de outras pessoas? Estás como peixe na água com vídeo? Usa esses pontos fortes. Eu, por exemplo, tenho algumas dificuldades porque sou bastante amadora em fotografia e vídeo e, apesar de ser designer, o meu meio de eleição é o texto. É onde sou feliz, a pensar com palavras muito mais do que com imagens. Por isso é que os meus posts têm tanto texto e por isso é que o podcast é tão bom para mim, é texto transformado em áudio. Gostava de me arriscar a mais coisas, mas vamos com calma.

Tirar partido dos meios com que gostas mais de trabalhar é um óptimo ponto de partida.

Depois, pensa a quem queres chegar. Se quiseres chegar a pessoas acima dos 45 anos, talvez o instagram não seja o lugar certo e poderá ser melhor ideia considerar o facebook. Se fores um freelancer à procura de fazer contacto com estúdios, talvez o linkedin seja melhor para ti do que facebook ou o instagram. Se o teu objetivo é criar conteúdo informativo e educativo sobre a tua profissão, o youtube pode ser um caminho a explorar. Se a direção de arte é a tua praia, talvez o pinterest ou o dribble sejam plataformas onde te vais adaptar muito bem. Pensa na faixa etária, nos teus objetivos, no tipo de de cliente que queres atingir e no tipo de trabalho que fazes. Procura informações sobre as diferentes redes e percebe se são as piscinas certas onde mergulhar.

Fazer um plano

Seja para manteres o portfólio atualizado seja para seres mais ambicioso e começares a criar conteúdo de propósito para publicar online, nada bate teres um plano.

Para mim, um plano de redes sociais era uma coisa meio misteriosa, que ouvia falar há uns anos e me parecia sempre um layout ao qual nunca tinha tido acesso, com campos específicos e rígidos, cheio de vocabulário de marketing que eu não conhecia.

Sim, há planos muito complexos, mas o nosso não tem de ser assim.

O teu plano pode ser uma tabela no excel, pode estar misturado com o teu calendário, ou até pode estar na tua agenda, em papel. Embora eu prefira digital porque muitas vezes mudo as coisas de sítio. Eu uso o Notion porque uso o Notion para tudo, mas antes de o descobrir usava uma tabela excel.

Para só atualizares o portfólio, sugiro que marques na tua lista uma tarefa semanal, num dia que costume ser mais parado (para mim a sexta-feira é o dia do conteúdo). Ou então que marques no calendário, ou noutro sítio onde costumes ter os teus compromissos. Basta 1 hora por semana, ou menos. Se conseguires 30 minutos para trabalhar em imagens para o portfólio, escrever descrições, atualizar o site, ao fim de um mês já tens várias coisas feitas. Um trabalho novo por mês, num site de portfólio, é bastante não é? Pelo menos eu acho que sim.

Já as redes sociais têm um ritmo mais acelerado e é preciso responder a isso. Não terás de ser tão perfeccionista como no portfólio, mas as imagens que sirvam para uma coisa também podem servir para outra. Além disso, embora as redes sociais tenham de facto uma velocidade maior do que um portfólio online, não te esqueças que, quando falamos em conteúdo, tendo de escolher, é melhor ser consistente do que prolífero.

Ou seja, mesmo que só publiques uma vez por semana, se publicares sempre uma vez por semana, vai ser melhor do que publicares todos os dias numa semana e depois ficares um mês sem lá ir. Ganha essa consistência, mesmo que exija teres paciência e esperar mais uns dias para pôr a imagem ou o vídeo seguinte. As publicações têm tempo de vida útil. Em algumas redes, como o youtube, o tempo é muito longo, porque o conteúdo é pesquisável e mesmo o que já tem vários anos vai continuar a aparecer e a ser relevante; já no instagram, uma publicação dura menos tempo e passadas 24h a 48h as pessoas deixam de se cruzar com ela.

No teu plano inclui o dia em que vais publicar, escreve já a legenda que vais colocar, o título e todas as informações que precises, de acordo com a rede que trabalhas, e prevê as imagens ou vídeos que terás de fazer antecipadamente. A melhor coisa quando falamos em conteúdo para redes é estares a trabalhar, no mínimo, para a semana seguinte. Agenda tudo o que conseguires, para adiantares trabalho e não sentires pressão para publicar em dias em que, se calhar, nem te vai apetecer pensar nisso. Quase todas as redes permitem agendar. No instagram é através do facebook, mais concretamente do facebook creative studio.

Vê a tua presença on-line como um compromisso a longo prazo

Em vez de pensares que é algo que te vai trazer resultados de um dia para o outro. Investe tempo, aos poucos, e mantém o teu foco em fazer o melhor trabalho possível, seja de design, seja no teu projeto pessoal. Algumas coisas não vão funcionar tão bem, e não faz mal, mas é a consistência, análise e repetição que te vão trazer os resultados que pretendes.

As redes sociais têm um potencial enorme para te ligar a outras pessoas, perto ou longe de ti, interessadas naquilo que estás a fazer. Eu estou surpreendida com isso e sei que vou tarde. A verdade é que acho que conheci mais pessoas em 2021 do que desde há muito tempo, e algumas das quais são pessoas com quem realmente me identifico e que espero encontrar pessoalmente em breve.

Acredito que estares numa rede social não deve ser um sacrifício. Caso seja, isso vai transparecer. Vais acabar por abandonar, não vais ter interação positiva com a aplicação e já se sabe que o algoritmo acaba por te penalizar por isso, o que gera frustração. É um ciclo vicioso. Por isso tira o melhor partido dela, escolhe a que fizer sentido para ti, mesmo que não seja onde está a festa maior a acontecer. Eu sei que nunca vou ser pessoa de tiktok. Dançar em público já me parece mau, quando mais registar isso na internet. Sim, eu sei que nem toda a gente dança, mas não tenho afinidade nenhuma com o tiktok. Tenho mais vontade de experimentar o youtube, por exemplo, e vídeo já seria um desafio suficiente para mim, sem a histeria do tiktok à mistura.

Ah, porque convém não esquecer que a internet é para sempre, por isso convém estares confortável com o que estás a deixar lá, tanto a nível profissional como a nível pessoal.

Espero que este post não te tenha criado pressão para publicar, publicar, publicar. O objetivo não é esse. O objetivo é mesmo motivar, de uma forma positiva, a expores o teu trabalho no mundo, sem medo, porque aprendemos e crescimentos com essa abertura. A exposição pessoal é sempre facultativa.

Artigos relacionados: